Nasceu no dia 23 de setembro de 2009. Chegou junto com a primavera. Agora que escrevi isso, me dei conta de quão simbólica é essa 'renovação' que o Gael trouxe para nossas vidas.
Tive um procedimento bem difícil, física e emocionalmente falando, e acabei passando pelos 3 tipos de parto. Não foi e não está sendo fácil lidar com essa montanha russa de emoções, causada por fatores externos e pela reviravolta dos hormônios.
Um fato muito triste e de caráter muito pessoal desencadeou as contrações do trabalho de parto. E, embora meio relutante, vou dividir um pouco da minha intimidade com vocês.
Na madrugada do dia 22 de setembro, recebi um telefonema anunciando o falecimento de meu pai. Ele mora em outro estado e estava se preparando pra vir conhecer o netinho. Foi um infarto fulminante.
Um relacionamento conturbado durante a adolescência e uma retomada de afeto e união, intensificada pelo netinho que estava para chegar. Era esse o 'status' da nossa relação.
As contrações - leves ainda - começaram algumas horas depois do telefonema. Em uma das vezes que fui ao banheiro, notei um pouco de sangue na calcinha. Isso me assustou um pouco. Ligamos para nossa médica e fomos até o consultório, para que ela visse se estava tudo bem.
Depois de uma avaliação, ela nos orientou dizendo que o trabalho de parto havia começado. Aquele sangramento era normal, e não havia motivo para preocupação. Pudemos voltar para casa, chamar a doula e aguardar o momento ideal de ir para a maternidade. Assim o fizemos.
Passei o dia todo com contrações regulares e dolorosas. A dor era tão forte que me assustei! 'Se é assim no começo, como será quando ficar mais forte?' eu disse para a Mayra, nossa enfermeira/doula. E ela, com sua calma e serenidade, me ajudou a respirar corretamente. Fazia massagens nos momentos das contrações, para aliviar a dor, facilitar meu relaxamento e, por consequência, facilitar a dilatação.
Viramos a noite nesse ritmo. Ninguém dormiu. Nem eu, nem Marcelo, nem Mayra. Todos nós em franco trabalho de parto.
Na manhã seguinte, dia 23, fomos logo cedo para a maternidade, onde nossa doutora me examinou novamente. No exame de toque, ela constatou que minha dilatação não passava de 2 cm. 'Olhando' mais a fundo, descobriu o motivo: Uma fibrose, resultante de uma cauterização de colo do útero, feita na adolescência.
Essa 'cicatriz' impedia a dilatação. Então, depois de conversarmos, um toque mais profundo e vigoroso (e muito dolorido) removeu essa tal fibrose, fazendo com que a dilatação fosse para 5 cm. Nesse manuseio, a bolsa arrebentou e já havia mecônio na água. Mas mamãe e bebê estavam bem. Os batimentos cardíacos do Gael estavam ótimos e ele se movimentava normalmente. Ainda restava uma 'fibrosezinha', que talvez não interferisse.
Dei entrada na maternidade e fui direto para a sala de parto, onde uma banheira cheia e quentinha esperava o momento ideal para que eu desse à luz o Gael.
Mais um dia de dores, que foram amenizadas com as mais diversas alternativas naturais: Massagens, respiração adequada, acupuntura, homeopatia, música suave, etc.
As contrações eram tão fortes, e num espaço de tempo tão perto uma da outra, que era impossível comer qualquer coisa. Eu já estava muito cansada, das dores, de não conseguir dormir, e de não parar de pensar no meu pai.
Os batimentos cardíacos do Gael eram monitorados de meia em meia hora. Estavam ótimos.
Lá pelo meio da tarde - sei lá se era tarde mesmo, porque eu já não tinha noção de tempo -, em outro exame de toque, a doutora constatou que minha dilatação não havia evoluído nada além dos 5 cm. Então decidimos que ela removeria a outra fibrose, mas que eu não aguentaria sem anestesia. Foi aí minha 'derrota': Não haveria mais parto natural. Iríamos para o parto normal.
Preparada com a raquidiana, pela primeira vez em dias eu não senti dor. A fibrose foi removida e, como da outra vez, a dilatação pulou de 5 cm para 7 cm.
Nessa trégua de dores, eu senti muita fome e sede, mas por causa da analgesia não podia comer nem beber nada. Estava só no sorinho.
Depois de algum tempo, o efeito da anestesia foi passando e eu comecei a perceber as contrações. Ainda não eram dores, mas percebia melhor cada nova contração que chegava.
Outra coisa que constatamos é que, apesar do Gael estar corretamente de cabeça para baixo, essa era uma posição em que ele sairia de frente, olhando para meu umbigo, depois do 'giro para sair'. O ideal seria de costas, olhando para meu bumbum. A doutora disse que isso não era problema para o parto normal, mas talvez a dor fosse um pouco maior. Estávamos fazendo 'exercícios' e 'posições' para incentivar o Gael a se posicionar melhor para a saída.
Passei o dia todo administrando contrações, dores, exercícios, posições, respiração... tudo isso 'vazando' líquido amniótico. O monitoramento dos batimentos cardíacos do Gael mostrava uma 'regularidade', o que indicava que ele também estava cansado.
'O ideal para um bebê dentro da barriga é que os batimetos cardíacos tenham uma certa cadência, como uma cavalgada' - disse a doutura.
Minha dilatação não havia evoluído nada. E foi aí o momento da conversa decisiva: Nossa Dra. Roxana nos explicou que o Gael não estava em risco de vida ainda. Embora seu rítmo cardíaco tivesse mudado, ele se movimentava muito bem dentro da barriga.
'Lyanne, se você quiser seguir em frente, posso esperar até o último momento seguro para o Gael, de modo que tenhamos um parto normal. Me preocupo com você, seu cansaço. Já são 41 semanas e 3 dias de gestação. Tem contrações há mais de 36 horas. Veja, vocês já passaram por todos os estágios. Você conseguiu proporcionar ao Gael todos os estímulos e hormônios necessários para que ele se prepare para sair'.
Não esperei ela concluir. Aceitei a cesariana, resignada. Uma guerra interna começou, enquanto era preparada para a cirurgia. 'Fui derrotada', pensava algumas vezes. 'Lutei até meu limite', pensava outras vezes.
Num dado momento, o anestesista se aproximou e falou com tranquilidade: 'Já vemos a cabecinha dele'. Nessa hora, um gatilho foi acionado na minha mente. Me transportei para a sala de parto, dentro da banheira, de cócoras, amparada pelo Marcelo, e vendo a cabeça do meu bebê despontando para fora.
Mais uma vez, o anestesista se aproxima e diz com suavidade. 'Pronto, nasceu, ele está bem'. Continuei lá na banheira, sentindo a última contração e vendo o corpinho do meu bebê, todinho na água, pronto para vir ao meu colo.
Foi então que soltaram minhas duas mãos e colocaram o Gael nos meus braços. Exatamente como eu havia pedido no
Plano de Parto, caso eu tivesse que me submeter a uma cesariana.
Enquanto eu era suturada, o Gael permaneceu comigo e com o Marcelo, que não saiu do meu lado em nenhum momento. Só então a pediatra pediu para levar o bebê para os primeiros exames, e o Marcelo foi junto.
Nasceu
Gael, pesando
3.290 quilos e medindo
50 cm. Nasceu uma
mãe, passando pelos três tipos de parto, lidando com complicações físicas e emocionais. Nasceu um
pai, que vivenciou o que poucos homens têm a oportunidade de viver, numa intensidade quase que feminina, com um envolvimento que o amor convida.
Nasceu uma família.